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Um passo atrás

Começo este texto provocando você, caro leitor, cara leitora, a olhar para a frase que dá título a esta crônica. Pra você o que seria um passo atrás? Essa expressão soa de forma positiva ou negativa? O que significa um passo atrás numa sociedade marcada pela busca de recordes, de se destacar no que faz, de estar no topo dos trends? Será que essa atmosfera, por vezes tóxica, pelo ser mais, ser o melhor no que faz, estar entre os melhores classificados, contribui para a formação de pessoas saudáveis fisicamente e emocionalmente? Ser o melhor no que você faz te dá espaço para ser você?

Vivemos um momento em que o termo domínio vem sendo utilizado exageradamente. Precisamos dominar as tecnologias, as mídias sociais, as diferentes maneiras de marcar presença online e assim por diante, com a sensação ou cobrança de que ou dominaremos tudo isso ou ficaremos para trás. Ou seja, estaremos estagnados e nosso concorrente estará quilômetros à nossa frente. A palavra de ordem é se diferenciar, mas na verdade se quer dizer: seja máquina, produza, compre, siga este ou aquele padrão. Se tentamos mostrar nossas fragilidades é mimimi, corpo mole. O pior é que toda essa pressão acontece num mundo marcado pela liquidez, como já falava o filósofo Bauman. Busca-se o melhor celular, o carro mais potente, o melhor trabalho, o melhor cargo, mas as conquistas não preenchem, não satisfazem, escorrem pelos dedos. Falta solidez, tudo chega e sai velozmente.

Os alunos precisam estar no topo para garantir a sua vaga no disputado Enem, que este ano, por sinal, terá a menor taxa de participação observada desde 2005. Bem compreensível, não, diante de um cenário como o que estamos. Os que não conseguem esses feitos, se não tiverem um bom apoio familiar, um bom desenvolvimento das suas competências emocionais, vão entrando numa espécie de descrença de si e buscando fugas em muitas outras atividades, às vezes em vícios ou relacionamentos sem conexão. Perdem o foco no que deveria ser mais importante: ser, tornar-se, crescer, descobrir, conhecer, conhecer-se, amar, amar-se. 

Esse cenário se torna propício ao surgimento de teorias extremistas, positividades tóxicas. Falta espaço para ser quem somos, com as nossas fragilidades, perfeições e imperfeições. Falta espaço para o humano viver sendo humano. Nas redes sociais o culto ao milhão de seguidores, às milhares de curtidas vão empurrando pessoas cada vez mais para uma zona perigosa, de afastamento da realidade, de necessidade de aceitação, quando, na verdade, falta a aceitação de si independentemente do número de likes nas postagens. A busca pela fama aparentemente fácil desola e adoece a muitos. 

Mas veio uma pandemia pra nos dizer pare! Volte para dentro de casa. Cuide-se. Olhe para você e para os seus. Ame agora, viva o agora, pois é muito tênue a linha entre o viver e o morrer. A morte nunca foi algo tão real e próximo. Mas, será que aprendemos? 

E eis que, após serem adiados devido à pandemia, os jogos olímpicos deste ano, ainda em meio ao caos deste período conturbado, parece que vão deixar alguns legados não apenas nos recordes de medalhas por equipe x ou y, mas por nos apontar ou acender uma tocha a iluminar alguns porões nos quais são guardadas ideias ou ideologias que sabemos, precisam de revisão. Temos acompanhado os protestos em relação às questões de gênero, como o fez a equipe de ginástica olímpica da Alemanha contra a sexualização das mulheres no esporte, especialmente no que tange às transmissões dos eventos que focam muito no corpo em closes das câmeras de TVs. A visão sexista que incomoda e precisa ser extinta.

No futebol acompanhamos os protestos contra a discriminação racial, por meio de um gesto que já vem sendo praticado em outras competições, conhecido como uma posição antirracista, quando o atleta apoia-se sobre um dos joelhos com a outra perna flexionada. O protesto foi feito tanto por seleções masculinas quanto femininas. A manifestação política por parte de atletas é de suma importância, são personagens que inspiram muita gente e podem fazer com que tais atitudes cidadãs se multipliquem. O esporte salva, que nos salve também da ignorância, da falta de consciência de classe, política, ambiental, de gênero e assim por diante.

Mas uma situação em especial me despertou ainda mais esperança. Temos acompanhado o drama vivido pela ginasta americana Simone Biles que, após uma falha e uma pontuação muito baixa, aquém do seu potencial, desistiu do evento, do tão badalado e esperado recorde de seis medalhas de ouro que disputaria. Simone falou algo que o mundo precisava ouvir, especialmente num momento em que estamos ainda mais exauridos do que já vínhamos, há bastante tempo, dando sinais dessa problemática. Não somos apenas profissionais, mães, pais, filhos, esposas, esposos, atletas, estudantes, enfim. Somos pessoas e como pessoas precisamos olhar para nossa saúde física, emocional e mental. De vez em quando, como bem disse a atleta “é preciso dar um passo atrás”, o que não deveria ser visto como derrota, desistência, mas como força, como capacidade de reconhecer os próprios limites e, sem medo das represálias dizer que precisa de tempo, precisa olhar um pouco pra si, precisa de apoio, de quem lhe olhe e lhe estenda  uma mão. Lembrei de um poema que escrevi em 2020, no qual digo que às vezes, resistir é muito mais desistir e desistir, pode ser uma forma de resistência.

Finalizo dizendo que, a meu ver, a ginasta Simone Biles sai mais do que como campeã, sai como uma pessoa que abriu a porta para que as pessoas se olhem, se acolham, se aceitem nos seus diferentes momentos. Que não se deixem levar pelas pressões externas que acabam internalizando. Que tenham a capacidade de dar um passo atrás, sem medo. 

Diante de um precipício, um passo atrás salva a sua vida. Viva sem medo de falhar, se permitindo parar quando for preciso para retomar mais forte. É por aí. 

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