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Pela Janela

Sei, não é justo e muito menos humano ou racional falar em um lado bom desse momento de pandemia no qual estamos. Concordo. Mas você há de concordar comigo que este momento, com todos os traumas, com todas as dores e sofrimentos, perdas, lutos e lutas, tem nos proporcionado situações de aprendizagem. Afinal a dor também existe para nos ensinar a valorizar os bons momentos, a morte deve nos ensinar a valorizar a vida e assim por diante.

 Acordei naquela quarta-feira com algumas providências a serem tomadas logo no início da manhã. E vamos combinar, para nós, mulheres, donas de casa, mães e professoras, as manhãs se iniciam muito cedo e parecem terminar mais cedo do que desejávamos.  Estava com pressa para adiantar algumas coisas da escola e preparar o almoço. À tarde era dia de ir com minha Ana para o tratamento que faz quinzenalmente.  Essa atividade da tarde já é suficiente para me trazer um misto de ansiedade e medo, para me fazer acordar um pouco tensa. Participar daquele momento doloroso, medicação intravenosa, o pavor de uma criança que desde os primeiros meses de vida passa por traumas de internamentos, tratamentos, é sempre sofrido.  Mas há também confiança,  afinal,  minha filha tem respondido muito bem a esse tratamento. 

Entrei no quarto para abrir a janela, gosto de sentir o sol invadindo minha casa. Ele traz as energias do universo, dissipa a frieza do ambiente e do corpo, e eis que sou reportada, por aquela janela ao meu interior, à minha infância.  Ao abrir a janela deparo-me com duas rolinhas passeando sobre o telhado da casa ao lado. Bem próximas da minha janela.  Parei no espaço e no tempo. Lembrei de quando pequena, lá na roça, ficava horas no terreiro de casa olhando as rolinhas catando sementes no chão. Isso quando nosso gato não estava por perto, porque ele adorava surpreendê-las. Sabe aquele momento em que você olha e pensa o quanto era feliz e nem se dava conta. O quanto aquela simplicidade era tão plena de tudo o que poderia me trazer satisfação. Hoje minha filha se chateia até com o sinal da internet quando está lento e os vídeos demoram pra carregar.  

Mas achei egoísmo saborear aquele prazer sozinha. Chamei, através de gestos, a minha menina que estava na sala, entretida assistindo aos seus desenhos favoritos. Ela veio e compreendeu que não deveria fazer barulho. O encantamento tomou conta dela. As rolinhas, por sua vez, nos observavam desconfiadas,  mas não voaram. Talvez por perceberam que nosso fascínio não lhes oferecia perigo. 

Ficamos ali, nós duas abraçadas escoradas na janela contemplando aquela cena. Parece que por aquele pequeno espaço de tempo, pude me desligar de todo o estresse que temos vivido nos últimos meses. Parece que através daquela janela,  pude experimentar uma renovação da esperança.  Sim, porque ao parar para me presentear com aquela contemplação pude refletir muita coisa. Ou melhor, pude sentir muita coisa refletida naquela visão.  

Vi que o medo é algo inerente e necessário aos seres vivos. O medo preserva as espécies.  Não falo do medo que paralisa.  Esse é prejudicial.  Mas daquele que nos coloca diante das nossas fragilidades e nos faz recuar, se necessário,  avançar ao encontrar segurança.  A segurança vem aos poucos, com o conhecimento,  que vai nos esclarecendo por onde ir, onde pisar, quais atitudes tomar. Tão logo aquele casal de passarinhos me viu, o medo se fez presente.  Mas eles não voaram logo. Eles foram se afastando aos poucos, me olhando,  analisando a situação.  Ao perceberem que não haveria movimentação perigosa de minha parte, então foram se sentindo mais tranquilos a ponto de se exibirem,  fizeram pequenas piruetas, estiraram as asinhas para que as penas recebessem a luz do sol,  mas sempre atentos. 

Outro ensinamento interessante foi perceber que mesmo presa, num pequeno apartamento,  cheia de tantas demandas, uma pausa na janela para ver a vida que acontece além do lugar onde estou, não me causa prejuízo em termos de tempo. Pelo contrário, me acrescenta mais tempo.  Porque um pequeno momento bem vivido vale por dias de correria, quando parece que estamos ligados na tomada, e seguimos num ritmo louco, mecânico e nos cansamos,  nos estressamos, adoecemos e aí sim, paramos por necessidade.

Abrir a janela e se dar ao prazer de olhar além do aqui onde estou. Vislumbrar o horizonte.  Receber o vento matinal ou do fim da tarde, faz um bem danado. A gente vai se acostumando a muita coisa, inclusive a ter pouco, quando se pensa estar fazendo um baita esforço para ter muito e esse muito parece sempre ser pouco. Pude sentir através daquele minúsculo momento na janela, que a liberdade tão desejada, muitas vezes não é alcançada justamente porque não nos permitimos o direito a esses pequenos prazeres. Não nos sentimos livres para vivenciarmos os bons presentes diários que a vida nos oferece. 

Num momento em que se vivencia tantas experiências dolorosas, quando a morte tem estado à nossa espreita de forma bem mais real e assustadora. Quando a vida parece a cada dia ter menos valor. Quando o amor é muito falado e exibido nos feeds, mas pouco vivenciado na prática.  Quando o respeito parece ser mercadoria em falta. A sensação de medo, de insegurança é uma realidade. Há também aqueles que estão tão doentes que sequer conseguem sentir a gravidade do atual momento e tentam vender uma imagem de que nada os atinge.  Poder em algum momento do dia parar e olhar o mundo,  mesmo que através da janela,  ganha um sentido muito especial.  É sentir que há vida pulsando lá fora, apesar dos perigos. É iluminar o olhar e saber que tudo não se resume a este pequeno cômodo onde estou. Se esse pode ser o lado bom do trágico e perturbador momento em que estamos, não sei, mas nos faz lembrar de que muitas e importantes lições precisam ser tiradas, para que possamos sair melhores, humanamente falando.

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