Blog

O valor de um “obrigado”

Sou fascinada pelas palavras, gosto de olhá-las, de analisá-las, buscando os mais variados sentidos. Ultimamente uma palavra tem me despertado bastante interesse, dado o contexto no qual venho escutando esse vocábulo de importância imensa. Mas antes de prosseguir nessa crônica, quero te fazer uma pergunta provocativa, caro leitor, cara leitora. Você já ouviu um “obrigado/obrigada” hoje? Já falou essa palavra para alguém hoje? Já se olhou no espelho e expressou sua gratidão a si, pelo que já se presenteou como conquistas na jornada da vida? Já agradeceu a Deus, ao universo pela vida e por tudo que favorece o seu viver? Pelo que você se sente grato/grata? Pause essa leitura e pense nessas questões.  Se esqueceu de agradecer a alguém por alguma coisa, faça-o agora. Depois volte à nossa conversa.  Estarei aqui, te esperando. 

 Agora que você voltou, vamos continuar nosso papo. Vejam bem, já vivi várias experiências profundas com a palavra obrigada. Reporto-me a uma das mais fortes e que ficou gravada na mente e no coração.  Uma tia minha, numa situação de fragilidade devido ao câncer de mama, nos seus últimos dias de vida, não deixava de agradecer cada gesto, cada ação que fazíamos em seu favor. Lembro-me de um dia, na sua última semana, quando ao banhá-la, ela permaneceu de olhos fixos em mim por uns segundos, em seguida,  com a voz bem arrastada me disse um muito obrigada, que foi lá no fundo da alma. Você perceber que fez algo tão pequeno,  para uma pessoa que fez tanto e te ajudou tanto e receber um afetuoso agradecimento, não tem preço. Começamos a olhar para o que fazemos e para a diferença que nossas ações podem fazer na vida do outro e passamos a fazer o que fazemos com sentido mais amplo.  

Há também aquele obrigado que a gente dá e desarma a outra pessoa,  não é mesmo? Quem já se deparou com um atendente no Banco, na Clínica ou no Posto Médico, no supermercado de cara feia, dando as informações de forma áspera,  por mera obrigação? Eu já. Muitas vezes. Ocorre que aquela pessoa pode estar passando por uma situação difícil e, na verdade, não está querendo te destratar, mas gritar pedindo socorro, mostrando que não está bem, mesmo que não reconheça. E se você responder com cortesia, é como uma mão estendida a essa pessoa.  Ela com certeza sentirá uma energia boa e será positivamente afetada. Faço isso sempre. Se a pessoa me atende de maneira ríspida, agradeço educadamente, de preferência olhando-a nos olhos e oferecendo-lhe um sorriso.  Geralmente percebo a mudança no rosto da pessoa.  E isso é muito bom. 

Certa vez, estando com minha filha internada em decorrência da dengue, diante do grave quadro, tive uma crise hipertensiva, muita dor de cabeça. Recorri a uma enfermeira que, ao realizar a aferição da pressão, apenas me disse que estava com a pressão muito alta e que procurasse dormir e relaxar, isso com um ar de autoridade que só vendo. Mais fácil seria chamar o médico plantonista e solicitar uma medicação. Mas, agradeci, mesmo com os olhos em lágrimas e disse que iria tentar, mesmo sendo bem difícil. Voltei para o quarto onde estava com minha garotinha de três anos. Para a minha surpresa aquela mulher chamou na porta e me trouxe uma medicação e um pedido de desculpas pela forma como havia me atendido. Os dois, remédio e as palavras dela, me trouxeram alívio.

Atualmente, no contexto do ensino remoto, deparei-me novamente com momentos surpreendentes envolvendo a palavra obrigada/obrigado. Em 2020, ano em que se iniciou a pandemia do coronavírus, eu não estava em sala de aula, mas na coordenação pedagógica, tendo me afastado em seguida por conta, mais uma vez, dos tratamentos da minha pequena. Não havia experimentado toda essa reviravolta na forma de ensinar sem estar andando pela sala, interagindo com os alunos, colocando-os em grupos para discutirem temas. E eis que em 2021 precisei me adaptar a esta nova realidade, numa nova escola, de um modelo novo, numa situação de fragilidade emocional mais acentuada, pois agora não era mais apenas o medo do vírus, ele já havia feito estrago na minha família, levou o meu pai. Comecei a lecionar exatamente 15 dias após a morte do meu papai, após uma semana de novo tratamento da minha filha, com reações seguidas de internamentos e assim por diante. 

Entro na minha primeira turma, apresento-me, realizo uma dinâmica de acolhimento, mostro a proposta de trabalho. Estava insegura. Uma nova realidade sem ao menos estar presencialmente, mas por trás de uma tela. Mas ao final da aula, ouvi de vários alunos um caloroso “obrigada/obrigado, prof, pela aula”. Parei sem entender. Respirei. Poxa, mais de dez anos na docência, muitas emoções já vivenciadas, mas não me recordava de em alguma aula, ao término, receber um “obrigado, prof”. 

Segui para a próxima aula numa outra turma. Mais uma vez, todo aquele ritual de apresentação. Percebi os alunos de certa forma arredios, eu estava meio que ocupando o espaço de uma professora que eles já conheciam. Não que ela tenha saído da escola, apenas houve permuta de turmas. Essa reação não foi percebida na primeira turma, pois eles estavam ingressando naquela escola. Minha insegurança quis aumentar, mas não deixei a peteca cair e desenvolvi o plano traçado para aquele momento. Mais uma vez a surpresa no final. “Muito obrigada, professora, por esta aula”, foi a fala de uma das alunas que foi endossada pelos demais. Pensei: será que fizeram isso como forma de acolhimento? Não, não era uma maneira de acolher a professora novata. É uma prática que tem se repetido ao longo desses quatro meses que estou caminhando com eles nessa escola. 

Esses dias fiquei aqui imaginando e analisando esses fatos. Num momento em que muitos resolveram alfinetar os professores, acusando-os de não estarem trabalhando,  quando na verdade o trabalho triplicou, receber um “muito obrigada” ao final de cada aula, soa como um “nós estamos contigo”, “nós reconhecemos a sua importância para a sociedade,  para as nossas vidas”. Creio que de todas as vezes que escutei um agradecimento,  esses que venho escutando dos alunos neste momento tão difícil, ganharam um novo sentido. 

Obrigada,  alunos e alunas, por estarem sempre me ensinando sobre ser professora, sobre o meu papel na sociedade, sobre novos sentido para as palavras, para as ações.  Obrigada por me proporcionarem tantas vivências maravilhosas. Obrigada por me ajudarem a ser a professora que sou.

Está gostando do conteúdo? Compartilhe

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on telegram